Nobreza paulistana, o guardador de golfinhos e uma terça muito louca
by Carolina Mendes
Eu não sou muito dada a demostrações públicas de bondade e fé humana. Confio em todo mundo mas costumo jogar com o meu baralho.
Segunda feira, estava como de costume cuidando da vida de escrever, ler, ouvir, ver quando minha mãe me liga pedindo ajuda: uma amiga tinha aparecido no escritório da minha mãe com uma labradora (cadela, dã) abandonada pelos donos. Me visto, pego um táxi, vou pra lá.
-Mas abandonada como?- perguntei pra amiga.
-Abandonada. Mãe e filha discutindo saíram andando, cada uma pra um lado, e largaram a cadela na calçada. Meu namorado, francês, sem entender segurou instintivamente a cadela que estava indo pra rua e ia ser atropelada e esperou por mais de 40 minutos pra ver se alguém voltava. Não voltou ninguém. Perguntamos no posto de gasolina, bares e portarias dos prédios se alguém sabia de alguma informação mas não descobrimos nada- respondeu a amiga.
Eu, desse meu jeitão, soltei uns 18 mil palavrões e voltei a pé com a cachorra pra casa. Dando voltas pra ver se aparecia alguém. Nada.
Dei comida, dei água, fiquei sentada no chão com ela até ela se acalmar. Fui dormir.
Acordo, vamos á veterinária. Cachorra parece estar bem, receita vermífugo, seguimos pra Cobasi. Um saco de ração, uma coleira, uma guia, um pote pra água, um pote pra comida, um lugar pra dormir, o vermífugo. Volto pra casa. Até esse ponto, a cachorra havia sido abandonada e não tinha mais dono. Certo? Certo.
Diz-que-diz-que divulga, aparecem os donos da cachorra. “Os donos” porque aparentemente é de um casal desfeito. A história da mocinha, não bate com o que minha amiga me contou, o moço tentar argumentar que deve ser um engano.
Eu resisto em mostrar a cachorra até que a minha amiga faça um B.O. dizendo o que ela viu acontecer. E que se ficasse provado que a cachorra foi abandonada, não voltaria pra mocinha que abandonou.
Só que essas jovens têm um retórica não particularmente inteligente, ou racional, ou correta, mas são cansativas, e quase histéricas, e não te deixam falar e não assumem culpa de nada. Mas falam. e choram, e se descabelam, e comovem os desavisados. Sabem o tipo? Então.
Taí o tempo todo: gente que tem 5 minutos de loucura e faz merda. Com namorado, com chefe, com mãe, com pai, no trânsito. Eu entendo que é humano e pode acontecer, mas não quando existe um ser indefeso que não sabe voltar pra casa, ou falar o que aconteceu, ou sentar e esperar alguém voltar.
Cães não são um video game que você enjoa e deixa de lado. Eles duram 10, 15 anos. Muito mais que viagens excitantes ou namoros adolescentes. É uma responsabilidade que eu não sei se muita gente que compra, porque é lindinho o filhote, tem noção.
Aí veio a polícia, e os amigos da mocinha, do mocinho, e a mulher do zelador do meu prédio que gritava comigo, e uma montanha de gente me dizendo que tinha que devolver a cachorra. Tinha, médio. Ela foi abandonada. No meu entender.
Consegui que a coisa fosse suficientemente longa, pra minha amiga chegar e o ex da mocinha (e co dono da cachorra) ouvisse a verdade sobre o que aconteceu da boca de quem estava ali na hora. Ele foi muito simpático, me agradeceu e aceitou a condição de ficar ele com a cachorra, para que fosse devolvida sem maiores complicações. Cachorra devolvida pro moço de olhar honesto.
A mocinha, que tenha pelo menos entendido que as ações dela têm consequências.(Olha eu que idiota achando que as pessoas atingem esse grau de reflexão sobre si mesmas e o mundo.)
Meu prédio em peso achando que eu roubei um cachorro, dado o escândalo, mas foda-se. Fiz o que considerava correto e me tranquilizei. Sangue espanhol fervendo, mas eu bem quieta voltei pra casa.
Mandei um SMS pro moço ex da mocinha (que trabalha em uma ONG que resgata golfinhos), comentando que acabei ficando uma coleira de adestramento, e fazendo um comentário simpático pra tentar melhorar as coisas.
Nenhuma resposta.
Hoje de manhã o guardador de golfinhos me aceitou no FB. No fim da tarde tinha me bloqueado.
Deve ter acreditado na história da mocinha, ou sei lá, também me acha maluca. Devo ser, ainda tento fazer mais o que é certo, fazer mais o certo e menos gritaria.
Se a coitada da cachorra voltou pra mocinha, nem na palavra de protetores de golfinhos se pode confiar mais.
O mundo vai, cada dia mais quebrado.
Babaca sou eu, que ainda tento.
Boa sorte pra coitada da cachorra, que é uma fofa e merece gente carinhosa E responsável. Boa sorte pra mim, que agora vivo sob olhares desconfiados de gente muito discreta, que não se mete na briga nem pra consertar o que é errado.
Coisas dos Jardins.